"O que, então, devemos fazer"

Indonésia, ano de 1965. O país vive uma profunda crise. A miséria e a pobreza dominam as ruas de Jakarta, capital do país, como um mar revolto que invade uma praia deserta. As tensões diplomáticas atingem o seu grau mais alto. Embaixadas são destruídas. Os poucos estrangeiros ocidentais que vivem na cidade são demonizados pelos cidadãos locais como as verdadeiras causas do mal mundial. Um golpe de estado se torna cada vez mais iminente. Poucos são os jornalistas que têm coragem de fazer o papel de corresponde internacional neste contexto tomado pelo caos. Mas este não é o caso de Hamilton. Cansado de trabalhos subalternos nos escritórios da ABS em Sidney, sua cidade natal, o jovem e ambicioso jornalista vê em Jakarta a sua grande oportunidade de ascensão como correspondente internacional. Solteiro, ousado, sem nada a perder, o jovem de emoções contidas, de comportamento seco e arredio, de atitudes obtusas – as vezes beirando a insensibilidade absoluta – não se deixa afetar por nada. Até que conhece um fotógrafo e cinegrafista local chamado Billy Kwan. Praticamente um anão, de aparência e modos beirando o bizarro, a dócil criatura, quase que inexplicavelmente enxerga em Hamilton como que um facho de esperança na humanidade, uma luz oculta, um alter ego, algo que procura cultivar e desenvolver. Os dois, então, a partir desse encontro, criam um tipo de conexão que irá mudar de forma surpreendente as suas vidas.




Algumas coisas neste filme, nesta história, realmente merecem ser refletidas profundamente. O fotógrafo anão, o jeito como falava, se comportava, como discordava, como transmitia suas verdades às pessoas; o contraste entre a sua aparência estranha e seu tamanho diminuto com a sua inteligência aguda e sua grandeza de espírito; o objetivo velado dele, mantendo arquivos detalhados das vidas das pessoas, características, signos, personalidades, analisando-as, procurando como que um pouco de luz nelas, como extrair esta luz, desenvolvê-la; tudo isso aludia a algo muito maior e misterioso, como se o próprio anão fosse um Deus, que quando sentava em frente a sua máquina de escrever, estaria olhando para suas criaturas do céu, acompanhando seus caminhos, suas motivações, seus equívocos, porém graciosamente, sem impor, de forma cavalheiresca, estaria a sugerir pequenas revisões de atitudes, de comportamentos, de propósitos de vida.

Sim, era quase como que ele representasse Deus! Um Deus propositadamente fraco, na pele de um pobre miserável desfigurado, sem qualquer presença, expressividade ou beleza, que se passaria facilmente como apenas mais um dos excluídos do mundo, com toda a sua grandiosidade oculta num corpo disforme, semeando sutilmente a bondade através de pequenas palavras e ações, encarnando a esperança onde o telespectador não conseguia enxergar nenhuma, e amando aqueles que não conseguimos enxergar qualquer razão para amar. Era como que representasse Deus, “entrando silenciosamente no mundo” – como disse Helmut Thielicke – sem que ninguém perceba, plantando pequeníssimas sementes, “grãos de mostarda”(!), como diria Jesus, que lentamente cresceriam, primeiro no coração das pessoas, depois, extravasando para o exterior e conquistando o mundo através do seu suave e sutil poder, que se infiltra como que uma gota de orvalho por entre as ranhuras dos troncos das árvores apodrecidas. Como disse o próprio anão numa daquelas frases casuais – casuais para o telespectador e leitor, porque para o autor não tem nada de casuais – “adicione o seu pequeno brilho à soma do brilho total”.





Era assim que ele parecia enxergar o propósito da vida, a forma mais coerente de se encarar os problemas atrozes do mundo, a despeito da indiferença profissional dos jornalistas, a despeito da insensibilidade do próprio Hamilton, a despeito de quão irrisório e insignificante um simples gesto poderia parecer para uma mente pragmática e realista como a do seu colega. “Não se trata de buscar as chamadas ‘grandes soluções’, ou mudar o sistema” – disse a criatura diminuta, concluindo – “mas de lidar com qualquer que seja a desgraça que se encontra diante de nós”. “Some ao bem supremo, a sua pequena parcela de bondade”. E disse isso tão naturalmente e casualmente que não se pareceu nem um julgamento e nem uma cobrança.

“O que, então, devemos fazer?”, declarou, por fim, o anão como se estivesse recitando uma frase decorada.

Esta é a pergunta núcleo da história do filme, em minha opinião, que sintetiza o propósito da trama, ou talvez a própria essência do drama. Uma frase extraída do título de um dos livros de Liev Tolstoi, que por sua vez a extraiu de um texto bíblico, em Lucas capítulo 3, versículo 10.

Esta foi a pergunta feita três vezes pelos interlocutores do profeta João Batista enquanto pregava para que o seu povo se arrependesse e voltasse seu coração para Deus no deserto. Tocados pela mensagem de João, primeiro a multidão lhe pergunta: “O que, então, devemos fazer?”. Em seguida, também os publicanos se juntam à multidão e lhe fazem a mesma pergunta: “E nós, o que, pois, devemos fazer?”. E, por fim, os soldados romanos, atingidos pela mesma contrição, se aproximam profeta em coro: “E nós? O que, pois, devemos fazer?”.

Esta foi a mesma pergunta que atormentou a vida Tolstoi e a do próprio cinegrafista no filme.

Aos três grupos, a resposta do profeta foi praticamente a mesma: “Quem tiver duas túnicas, reparta com aquele que não tem; quem tiver alimentos, faça a mesma coisa...”.

Converter seu coração a Deus é ser capaz de fazer-lhe esta pergunta: “What, then, must we do?” (“O que devemos fazer?”), e atender a resposta que Ele nos der. Foi isso que o próprio Tolstoi um dia fez, quando andou até a praça principal de Moscow, onde haviam muitos pobres e miseráveis, e foi dando tudo o que tinha a eles, até não lhe restar mais nada nos bolsos.

Foi esta a luz que Billy Kwan, o cinegrafista anão, aparentemente tentou extrair do seu colega jornalista. Uma luz que ele parecia ter enxergado bem no fundo da alma do indiferente corresponde internacional. Talvez seja esta a luz que Deus procure extrair de todos nós. Mas ele nunca se manifesta a nós com poder, com grandeza. Ele apenas nos sugere sutilmente, graciosamente, através de pessoas comuns, pessoas que muitas vezes, pela sua aparência somos tentados a não dar atenção. Mas que lembremos sempre disso depois desse filme: as vezes, sem saber, estamos falando com Deus – e não sabemos.

O Gladiador e a Graça

O apostolo João, na sua epístola, desfere a curta e objetiva sentença a seguir: “Deus é amor”. Ele define Deus como amor. O amor e a Graça de Deus não são meros títulos divinos em virtude de algumas ações isoladas que ele realizou; A Graça e o Amor fazem parte da própria natureza divina.

Isso faz me lembrar de um filme: “O Gladiador”.Os Gladiadores na Roma antiga eram obrigados a lutar até a morte numa arena, como entretenimento para o público. Era a famosa política romana do “Pão e Circo”. Tragicamente o povo entendia estes combates sangrentos como diversão. Pois bem, no filme o personagem principal Antonio Máximus, ex-general do imperador romano recém falecido é perseguido pelo sucessor ao trono para ocultar uma conspiração que levou ao assassinato do próprio rei. Como consequência, o estimado general acaba se tornando, contra a sua vontade, um Gladiador. Contudo, a sua postura na arena deixa irritados os organizadores do evento. Maximus começa a não matar os seus adversários. Então, contra as expectativas dos organizadores, a multidão sedenta por sangue não se revolta, mas começa a exaltar o Gladiador aclamando-o de Misericordioso!

O que é interessante e até certo ponto engraçado nesse fato é que alguém pode ser conhecido e louvado como misericordioso sem realmente ser. Existem inúmeras razões para não matar. Mas independente da razão porque alguém não mata este pode continuar sendo reconhecido como misericordioso. Neste caso, ele é chamado de misericordioso porque não mata; e não, necessariamente, não mata porque é misericordioso. A virtude, todavia, só existe no segundo caso – Ele não mata justamente por causa da sua misericordia. A sua ação emana da sua essencia, e não a sua essencia é inferida da sua ação. A causa dele não matar é a sua misericordia, e não a causa dele ser chamado de misericordioso é o fato dele não matar.

Isso nos remete a uma situação muito parecida quando falamos da Graça, do Amor e da Misericórdia de Deus. Podemos dizer, como muitos dizem, que Deus é misericordioso porque ele não nos matou, não nos condenou, ou não nos deu o que merecíamos. No entanto, isso é um equivoco. A causa Dele receber o título de Misericordioso não é o fato de não nos matar; pelo contrário: a causa Dele não nos matar é a sua Misericordia. Deus não é misericordioso e gracioso porque não nos matou; ele não nos matou justamente porque é misericordioso e gracioso. A Graça, a Misericordia, o Amor fazem parte da Natureza de Deus, da essencia divina. Não são apenas títulos inferidos de algumas ações isoladas no tempo e no espaço.

Como a multidão romana nas arenas dos Gladiadores, muitos cristãos hoje chamam Deus de Gracioso, e o louvam como Gracioso por não ter-lhes aniquilado. Escapa-lhes, contudo, a verdadeira razão: Deus não é Gracioso porque ele nos Salvou; ele nos salvou porque é Gracioso. Escapa-lhes a simples revelação do apóstolo João: “Deus é amor”.

O SILÊNCIO DE DEUS


O contexto do filme é apocalíptico. Daí o título da película, tirado do apocalipse. As pessoas temem o fim do mundo, diante da peste negra que assola a Europa. O juízo final é iminente. Antonius Block, o protagonista, é um cavaleiro sueco, sóbrio e racional, que, seguindo a mentalidade religiosa da sua época, se lança em direção à Cidade Santa, nas peregrinações sagradas das Cruzadas cristãs, na esperança encontrar respostas para suas indagações existenciais. Durante as peregrinações vê o lado tenebroso da religião, que não é mais do que o lado tenebroso do próprio homem, embebido pela sua ganância, embriagado por si mesmo, promovendo o terror, a injustiça, a hipocrisia e a maldade por onde passam, e tudo em nome de Deus.

De imediato percebemos que Block é diferente. Ele não ingressou nas Cruzadas atrás de riquezas ou aventura, como muitos outros. Ele foi atrás de respostas. Queria compreender o propósito da vida, saber porque e para que existia, queria achar algum sentido na sua vida, que lhe parecia tão sem significado; queria achar o sentido de todo o sofrimento e das injustiças que o rodeavam por todos os lados, queria compreender o mistério divino. Porém, retorna frustrado. Não consegue qualquer resposta. Não encontra explicações. Volta sem perspectivas. Anos de peregrinação para então descobrir apenas uma única verdade: que a religião não passava da mais pura encarnação da hipocrisia e da mentira. Não havia nada ali além do vazio.

Desolado, o cavaleiro percebe que não há mais o que fazer. A peregrinação para a Cidade Santa era a sua última tentativa, e nada obtivera. Restava agora apenas esperar a morte, que certamente viria buscá-lo, mais cedo ou mais tarde. No entanto, apesar tudo, ele ainda encontra uma última alternativa. A mais perigosa, que sem dúvida lhe custaria a própria vida. Mas ele não está preocupado com o preço a ser pago. Ele quer respostas. Sua última tentativa envolveria a própria Morte. E ele está esperando por ela.

É assim que começa a obra prima de Bergman: um cavaleiro, solitário, à beira do mar, descansa de sua longa viagem, quando surge um personagem enigmático de rosto esbranquiçado e longa capa preta. É a morte. A objetividade Ingmar Bergman assusta logo de cara. Já nos primeiros segundos do filme o diretor revela toda a trama, sem qualquer embaraço ou cerimônia. Um homem está na beira da praia e a morte se apresenta a ele dizendo que a sua hora chegou. Então o cavaleiro desafia a Morte para uma partida de xadrez, cuja derrota lhe custaria a própria vida.

Aqui já é preciso parar para refletir sobre a profundidade filosófica dessa magnífica metáfora do mestre do cinema.

Os esforços humanos, antes de tudo, se resumem numa tentativa desesperada de superar a morte. Tudo se resume a isso. O homem tentando vencer a morte, a todo o custo. Por isso a sacada do jogo de xadrez com a morte, por si só, é espetacular, digna de um gênio. A humanidade trava uma batalha contra a morte, e qualquer custo tenta vence-la. Mas não consegue. Este é um grande ponto do filme. Até hoje o homem nunca venceu a morte. Isso fica claro na história quando a morte aceita gratamente o desafio, mas admite que jamais perdeu. Não é Block contra morte, mas o ser humano contra a morte, usando toda a sua inteligência e capacidade para vencê-la.

No caso específico de Block, contudo, o seu objetivo não é continuar vivo, simplesmente. A maior angustia do cavaleiro não é morrer; é morrer sem saber porque viveu. Maior que a angustia da morte em si, é a angustia da ausência de sentido da vida. Block não quer morrer sem saber a razão da sua existência. Ele quer descobrir o sentido da vida, ou, se a vida tem algum sentido, custe o que custar. E ele entende que o sentido da vida se resume na resposta sobre a existência de Deus.

Se Deus não existe, não há sentido a procurar. A vida não tem qualquer sentido. Realmente o destino humano é trágico e não há razão para qualquer esperança ou aspiração. O fiel escudeiro de Block está certo em seu humor negro, em sua acidez, em não se preocupar com estas questões. Não há o que se preocupar simplesmente porque não há nada. Porém - e esta é a grande questão! - se Deus existe, a vida tem um sentido, e consequentemente a morte. O cavaleiro não quer morrer sem ter uma resposta acerca do mistério divino.

Então, para descobrir o sentido da vida, lança-se em sua busca desesperada por Deus. Cansado das mesmas respostas rasas e enganosas do clero, o cavaleiro quebra todos os protocolos a procurar as respostas sobre o mistério divino nos personagens mais impensáveis até então, como uma suposta bruxa prestes a ser queimada na fogueira ou uma simplória família de artistas ambulantes. Nem mesmo a Morte escapa as perguntas do cavaleiro. O único jeito de vencer a morte é descobrindo o sentido da vida. É descobrir se Deus existe. É isso que ele tenta fazer.

Assim, enquanto está vivendo, procurando, e buscando a Deus, ele está jogando. E é provável que é por isso que não se mostra lance algum no filme: o jogo de xadrez é a metáfora da própria vida, do homem lutando para descobrir o mistério da vida através da sua racionalidade, enquanto o seu tempo se esvai por entre os seus dedos e a morte se aproxima cada vez mais.

Porém, não há resposta. Ninguém tem uma resposta. O silêncio continua. O silencio é a única resposta que ele encontra. A única certeza inexorável que o cavaleiro consegue ter é a certeza da própria morte, cuja expressão é simbolizada por Bergaman com a presença corpórea da Morte no filme. Enfim, a película termina sem as repostas, para o desespero do telespectador, e também do cavaleiro Antonius Block. Também, não poderia ser diferente: ninguém tem estas respostas, e todo ser humano compartilha dessa angustia existencial do cavaleiro.

A despeito de todas as particularidades do filme que poderiam ser comentadas, dos diálogos marcantes, dos enquadramentos fabulosos, e da metáfora sensacional do jogo de xadrez com a morte, talvez o detalhe mais extraordinário que eu tenha percebido seja o próprio título do filme, extraído do texto sagrado do apocalipse, na Bíblia cristã:

“E, havendo aberto o sétimo selo, fez-se silencio no céu por quase meia hora”.
Apocalipse 8:1

Sem dúvida nenhuma o filme não trata sobre o a hipocrisia das Cruzadas cristãs, sobre a inexorabilidade da morte, ou sobre a absurda mentalidade religiosa da Idade Média na época da peste nera. O filme trata sobre o silencio de Deus, a angustia que, segundo os biógrafos de Bergman, o assombrou ao longo de toda vida. Onde está Deus? Porque ele não se revela? Se ele existe (e Bergman parece com todas as forças querer acreditar que sim) porque Ele permanece em silencio em relação ao propósito da vida, o sentido do sofrimento, a razão da nossa existência? O silêncio de Deus é o maior dos martírios humanos.

É por isso que o paralelo do filme com o apocalipse é absolutamente espetacular. Cada selo, no apocalipse, trazia um flagelo que atingia a humanidade. Mas no último selo, o sétimo, não houve flagelo algum: apenas o silêncio. O silêncio de Deus é o pior dos flagelos.

A grande verdade que o filme desenvolve é que, apesar de muitos grupos advogarem o contrário, o homem vive na mais completa ignorancia acerca de Deus, da sua origem e do propósito da existencia humana. E por mais incrível que pareça, quando numa cena chave do filme Antonius Block questiona a própria Morte sobre a existência de Deus, e contempla o seu silencio diante da pergunta, Bergman parece querer deixar no ar seu trágico palpite: talvez nem mesmo a Morte possua o conhecimento sobre o mistério divino.

Mas o texto de apocalipse diz que o silencio foi de "quase meia hora". O silencio tem um tempo determinado. Existe um um faixo de esperança. E assim o filme não termina com uma nota pessimista, como alguém poderia supor. Dois detalhes se destacam. O casal de artistas são os únicos que sobrevivem diante da morte. E Block morre orando a Deus.

No primeiro detalhe parece que estamos a presenciar uma insinuação de Bergman sobre onde ele suspeita estar o sentido da vida; ou, como ele suspeita que a vida deve ser vivida, embora ele mesmo não consiga. É possível perceber a inveja que o autor sente das pessoas que simplesmente celebram a vida como um presente, celebram o encontro, a natureza, e desfrutam a vida de maneira leve e humilde, como o casal de artistas fazia, com o seu pequeno filho. Sutilmente Bergman parece insinuar que há algo de especial e misterioso nestas pessoas, que apenas celebram a vida com simplicidade e alegria. E isso se destaca, sobretudo quando Block celebra o momento feliz ao lado do casal, criando um memorial para se lembrar daquela ocasião, numa cena cheia de simbolismo que parecia mais uma alusão à Santa Ceia do Senhor. O sentido da vida talvez não possa ser explicado racionalmente, mas possa ser vivido.

Também é significativo que o cavaleiro, com a sua racionalidade, não encontra respostas; os clérigos, com sua religião, não oferecem respostas; mas o artista simples, aparentemente até bobo, é quem parece estar mais próximo de Deus, e tem aquilo que mais poderíamos aproximar às respostas, que Block tanto procura, ou a pistas do mistério divino.

O segundo detalhe é a oração de Block antes de ser levado pela Morte. Mesmo sem respostas, mesmo totalmente no escuro, ele se recusa a aceitar o caminho do ceticismo do seu escudeiro. Ele continua acreditando. Mesmo diante do pior dos flagelos, o silêncio de Deus, a sua completa ausência, ele continua tendo esperança. Talvez não haja melhor definição para a fé: aquele que continua buscando apesar de não encontrar respostas e nem sentido.

A HISTÓRIA É ESCRITA COM SANGUE


Um filme que possui uma mensagem pungente. A história de uma terra, de uma nação. Uma história. No sentido quase incompreensível da palavra. Aquilo que a maioria dos que dela participam não se dão conta de que fazem parte. Aquela era a história da China. Mas poderia ser a minha, a sua, ou de qualquer um.

Um guerreiro chamado Sem Nome se apresenta perante o rei Qin, chefe do Império Chinês, como recompensa por ter matado os maiores assassinos de sua época, que outrora já haviam atentado contra a vida do próprio rei: Espada Quebrada, Céu, e Neve Voadora. Mas o rei ignora que Sem Nome também é um assassino disfarçado. Ele havia articulado um plano maquiavélico com outros assassinos para ficar a 10 passos do rei, quando teria a capacidade de matá-lo, mesmo sem arma alguma. Mas para chegar tão próximo ele precisaria, antes, explicar ao rei de que maneira havia matado os tão temidos assassinos, que eram espadachins inigualáveis, praticamente imbatíveis. Ele deveria convencer o rei de que realmente os havia derrotado. Então, num diálogo em que verdade e mentira se misturavam, o rei procurou encontrar a verdade na história que o guerreiro Sem Nome contava, filtrando o que lhe parecia provável ou improvável, coerente e incoerente, num jogo que mais parecia uma tradição milenar.

O rei encontrou a verdade.

Então, eu, telespectador, comecei também a enxergar. Enxergar que todas as histórias são verdadeiras. Basta sabermos encontrar o que é construção psicológica da pessoa que a conta, o que são os nossos próprios preconceitos, e o que, de fato, é um fato.

Eis a verdade: Para aperfeiçoar a sua técnica na espada, Espada Quebrada passou a estudar caligrafia. E estudando caligrafia sua técnica se aperfeiçoou a um nível muito elevado. Percebeu, então, que naquela etapa do seu treinamento nada poderia impedi-lo de matar o rei inimigo. Então, no auge do seu treinamento, Espada Quebrada invadiu o palácio real, defrontando-se com milhares de soldados e derrotando-os facilmente. Invadiu os aposentos reais. Ninguém era capaz de detê-lo. Ninguém era capaz de derrotá-lo. Não haveria escapatória para o rei. Então, diante do rei, frações de segundo antes de matá-lo, ele atinge o ideal máximo do guerreiro - e não mata o monarca.

Por que ele não matou o rei? Foram décadas de treinamento exaustivo para aquele tão esperado dia. Por que ele desistiu? Ninguém entendia a razão. Nem o rei, nem seus companheiros, nem mesmo a sua amada, que depois desse dia passou a ignorá-lo.

Espada Quebrada atingiu o ideal máximo do guerreiro. Como ele conseguiu isso? Estudando caligrafia.

Isso por si só já é uma mensagem. Não foi treinando sua esgrima que ele chegou no grau máximo, foi estudando caligrafia. Isso guarda um grande segredo: Tudo tem haver com tudo. Qualquer atividade desenvolvida ao grau máximo de perfeição nos leva a um estado de percepção mais elevado, mas que não se manifesta enquanto esta atividade for um fim em si mesma; ela deve ser apenas e sempre o meio. Em outras palavras, a perfeição de uma atividade não nos levará ao nível da iluminação a não ser que outras atividades aparentemente sem relação nenhuma com aquela sejam consideradas como uma extensão dela. É assim que o guerreiro se limita: quando ele acha que o seu treinamento tem haver apenas com espadas e lutas, e a evolução da sua técnica está limitada a aquilo que ele entende como fazendo parte da arte que pratica.

O segredo de Espada Quebrada estava na sua caligrafia. Então era ali que o rei deveria procurar uma resposta. Então, olhando atentamente para os perfeitos caracteres desenhados pelo grande guerreiro no papel o rei o compreende. Exerga a alma de Espada Quebrada. No primeiro estágio o guerreiro entra em sintonia com o ambiente a sua volta. Tudo, seu punho, sua roupa, seu cabelo, o ar, a água, tornam-se potencialmente uma arma mortal. No segundo estágio, o guerreiro e espada tornam-se um. A espada torna-se uma extensão de seu próprio corpo. No terceiro estágio a espada desaparece. Simplesmente não existe mais. O desejo de matar cessa e só resta a paz. Quando se encontra um ideal supremo, aquilo que os filósofos chamam de Verdade, outros de Iluminação, outros Salvação; a espada não é mais uma arma; nem tão pouco parte de você; ela simplesmente desaparece. Restam apenas as palavras. Começa-se a enxergar claramente a tolice. Começa-se a enxergar o real problema.

“Nossa Terra”. Foram as últimas palavras de Espada Quebrada proferidas ao guerreiro Sem Nome para tentar convencê-lo a não matar o rei. Diante dessa verdade esmagadora, dessa iluminação que ele teve, dessa única e clara possibilidade de salvação para o seu povo, ele percebe que tudo se tratava de “ver”. As pessoas tem que “ver”. “A iluminação é um ponto de vista”, disse Buda. A paz é a conseqüência do “ver” que hoje está se fazendo história. Mas, que história se está construindo? Quando se atinge o estágio máximo abraça-se o sofrimento com coragem e a morte com brandura, pois são com eles que a história é escrita. Exclusivamente com líquidos: suor, sangue e lágrimas. É com o meu sofrimento e principalmente com a minha morte que a história será escrita. E se a minha vida não servir para alterar nada neste mundo, não terá tido sentido.

E assim, Espada Quebrada deixou o mundo dos vivos para se tornar história, e para que as suas duas palavras, escritas na areia, brevemente apagadas pelo vento, ficassem gravadas para sempre no imaginário daquele povo. “Nossa Terra”. As palavras por meio das quais a China, até hoje, mais de 2000 anos depois, ainda é chamada pelos seus habitantes.

QUANDO PREFERIMOS A INCOERÊNCIA

Dois policiais abordam um casal de negros ricos numa caminhonete de luxo. Um dos oficiais, o mais velho, tem uma história com os negros que o telespectador desconhece por completo. Numa época em que o racismo imperava nos EUA o seu pai havia dado emprego digno a muitos negros, tratando-os verdadeiramente como seres humanos, e exatamente por essa causa havia perdido tudo o que tinha. Agora, muito tempo depois, sofria com uma infecção urinária que não se curava porque a encarregada do plano de saúde - uma negra! - se recusava a liberar os exames necessários para a sua recuperação. Essa história devia estar corroendo o interior do policial enquanto ele fazia aquela abordagem de rotina. Então ele manda o homem descer do carro. A mulher, esnobe, aparentemente embriagada, começar a desdenhar e provocar o policial por submetê-los a aquele procedimento. Irritado, o homem da lei dá voz de prisão ao casal efetua uma revista abusiva na mulher sob as vistas do marido que tentava, sem sucesso, controlá-la.

A genialidade dessa cena se mostra sobretudo nisso: o telespectador não conhece a história do policial, a sua relação com o pai, a sua revolta circunstancial contra os negros. Não conhece a pressão a que ele estava submetido, as noites em claro ajudando o seu pai, o seu desespero diante daquela situação, e a repressão da sua revolta, como se fosse um balão inflando quase a ponto de explodir. O telespectador ignora tudo isso e é simplesmente exposto a esta cena sórdida, logo no início do filme, sem outras bases nas quais se apoiar. E assim, o diretor nos força a cometer a injustiça brutal: determinamos em nossa mente que o policial mais velho é necessariamente racista, e por extensão também deve ser corrupto, um mau filho, um mau policial, em suma, um ser humano desprezível. Da mesma forma determinamos em nossa mente que o policial mais novo, por ter reprovado aquele ato do colega, é necessariamente um bom policial, integro, ético, correto, etc. Uma cena (apenas isso!) foi o suficiente para balizar o nosso julgamento e a nossa sentença sobre a índole dos dois personagens, a despeito de tudo o que desconhecemos acerca deles. Está estabelecido o tema do "pré-conceito": conceito construído a priori; conceito construído sem uma base sólida; conceito construído antes de se ter um conhecimento real das coisas; conceito construído em cima de suposições, de pré-julgamentos, escassez de informações.

Dentre outras coisas esse filme me revelou o seguinte: os preconceitos nos deixam cegos para a verdade. É evidente que o policial cometeu um erro. Não é essa a questão. A questão é que todo o resto do filme - para nossa grande surpresa - revela o contrário daquilo que vimos no início. O valor do policial mais velho, e o caráter dúbio do policial mais novo. Porém, independente do que é mostrado cena-após-cena continuamos firme no nosso designio, naquilo que pré-concebemos logo de início, e mesmo quando o nosso conceito construído sobre a índole de cada personagem se "choca" com a realidade, se despedaça na nossa frente, permanecemos firme na nossa resolução injusta. Terminamos o filme confusos, e não é de se estranhar: preferimos a incoerência à rever os nossos próprios conceitos.

O DEUS SEM PODER



O que o homem seria capaz de fazer se dispusesse de poder ilimitado?
O que o homem seria capaz de fazer se assumisse o lugar de Deus? Com muito bom humor este filme revela que todo o poder do mundo, sem sabedoria, não serviria para nada. Se o ser humano trocasse de lugar com Deus - não importa quanto poder ele adquirisse - o Universo estaria em apuros.

Agora eu gostaria de fazer uma pergunta mais assustadora que esta. O que Deus seria capaz de fazer se não dispusesse de poder algum? Em outras palavras, o que Deus seria capaz de fazer se assumisse o lugar de qualquer um de nós? Se o Todo Poderoso abrisse mão do seu infinito poder e assumisse todas as prerrogativas humanas, do que seria capaz? Para saber a resposta dessa pergunta tenebrosa basta abrirmos os Evangelhos, na Bíblia Sagrada, e lermos a história que começa assim:

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus (...) e o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, como do Unigênito do Pai".

A HUMANIZAÇÃO DO HOMEM


O mundo em que vivemos hoje foi construído em cima de ruínas de civilizações inteiras. Muito sangue inocente foi derramado. Povos foram extintos. Nações foram diluídas nos interesses políticos e econômicos corrompidos pela doença da ganância e do poder. A Missão é um filme que revela isso como nenhum outro. Ambientado no século XVIII, a película retrata a guerra estabelecida por portugueses e espanhóis contra jesuítas idealistas que evangelizavam os índios nos Sete Povos das Missões, na América do Sul. Dentro desse contexto histórico surge o protagonista do filme, um violento mercador de escravos indígenas (Robert de Niro), que arrependido pelo assassinato de seu irmão, realiza uma peregrinação de auto-penitencia pelos Sete Povos, juntamente com aquele que outrora fora um dos seus principais antagonistas: um consagrado líder jesuíta chamado Gabriel (Jeremy Irons). Em sua jornada, o antigo mercador descobre um significado maior para sua vida, e uma oportunidade de perdão. O destino daquelas comunidades indígenas, contudo, já havia sido decretado, e aqueles dois homens decidem dar a vida por aquilo em que acreditam.

Diante dessa história comovente não posso deixar de refletir acerca desse projeto o qual chamamos humanidade. Será que ainda restou uma gota daquilo que nos fazia humanos? Matamos, roubamos, violentamos, exploramos, destruímos, e, pior, legitimamos tudo o que fazemos com uma retórica rebuscada e meia dúzia de palavras bem escolhidas. A humanidade, o dom que nos foi dado, o dom com o qual nascemos, se esfarelou ao longo da estrada do tempo. "O mundo é assim mesmo", dirão alguns ainda se recusando a refletir sobre tudo isso. Mas no fim do filme essa pergunta é respondida. Um cardeal, que havia consentido na destruição daqueles povos, é pego refletindo sobre suas próprias crenças e valores quando um tal senhor Hunter lhe faz esta mesma afirmação: "O mundo é assim mesmo". Com pesar o cardeal responde com uma voz embargada: “Não senhor Hunter. O mundo não é assim. Nós o fizemos assim. Eu o fiz assim”.

Embora grande parte das pessoas hoje sejam afiadas para denunciar as discrepâncias do mundo, poucas são capazes de reconhecer a sua própria responsabilidade nesta situação. No fundo pouquíssimas pessoas estariam verdadeiramente dispostas a abrir mão do seu conforto e comodidade em prol da vida humana. Pouquíssimos abririam mão da sua energia elétrica, do seu automóvel, do seu aquecedor a gás, seu telefone, ou de uma infinidade de outros objetos tecnológicos ou não, que constituem o fundamento da nossa sociedade, e que foram desenvolvidos as custas de muito sangue e destruição no passado. É muito fácil para nós desaprovarmos hoje o que foi feito no passado quando usufruímos sem pudor de tudo aquilo que eles até mataram para construir. Mas não estou pregando contra o progresso aqui. Também não estou propondo uma alternativa para o mundo. Estou pregando sim contra as pessoas que balançam a cabeça para aqueles que cometeram estes pecados no passado, achando-se melhores do que eles. A mesma coisa que foi feita pelos Fariseus na época de Cristo, quando disseram: "se estivessemos vivos no tempo de nossos pais jamais teríamos sido cúmplices seus no derramamento de sangue dos profetas..." (Mt 23). No fim eles acabaram por assassinar o maior dos profetas, o próprio Filho de Deus. Sim, não somos melhores do que aquele cardeal.

Depois de refletir sobre este filme não consigo deixar de pensar num verso de Graham Greene: "Ser humano também é um dever". Este verso, embora pequeno, expressa uma grande síntese."Humano" não é apenas uma característica com a qual todos nascemos. É também um dever. É um alvo a ser atingido. Com destreza magnifica este gigante da literatura ressalta a responsabilidade de todos nós ao transformar em "objetivo" aquilo que diríamos que é inevitável como ponto de partida:

"Nascemos humanos, mas isso não basta: temos também que chegar a sê-lo”.

O SILÊNCIO DA VOZ DE DEUS - parte 1

Um vírus dizimou mais de 90% dos habitantes do planeta. Um dos sobreviventes – um famoso cientista militar – procura desesperadamente a cura para a doença que levou ao extermínio quase toda a humanidade, e inclusive a morte de sua mulher e filha. Sozinho em Nova Yorque ele busca por outros sobreviventes da catástrofe. Meses se passam nesta busca. Anos. Até que um dia ele encontra um. Ana. Uma jovem esperançosa que afirma ter conhecimento de um campo de refugiados, não muito longe dali. O cientista não acredita. “Estão todos mortos”, argumenta. Ela não tem provas, não tem informações a respeito, mesmo assim sustenta, convicta, aquele pensamento com outra afirmação ainda mais enigmática: “Deus falou comigo”. Aquilo soa como tolice aos ouvidos do famoso cientista. Mesmo assim a moça insiste: “Você nunca escutou a voz Dele?”. E acrescenta: “É o silêncio...”.

Nunca se vira, talvez, em toda história da humanidade, um silêncio como aquele. Com o extermínio dos habitantes de Nova Yorque aquela cidade, pela primeira vez, ficou em silêncio absoluto. No silêncio o homem ouve coisas. No silêncio absoluto, longe da agitação, longe das infinitas vozes de pessoas, do barulho de carros e buzinas, longe de todos os estímulos que a nossa mente recebe ininterruptamente, o homem é capaz de ouvir... Ouvir a voz de Deus. Imagino que ele deva ter se lembrado das tantas vezes que viu e ouviu coisas ao longo dos mais de mil dias que permaneceu sozinho naquela cidade desde a terrível tragédia. De um modo inexplicável ele sabia que a frase daquela moça fazia muito sentido. Não haviam sido poucas as noites que, dormindo na banheira da casa onde se escondia, ele via imagens tão claras em sua mente que pareciam realmente trazer alguma mensagem. É evidente que eram apenas memórias. Mas por que aquelas memórias? Por que aquelas palavras que ele escutara pouco antes do mundo desabar voltavam sempre e insistentemente à sua mente? Ele não podia negar que o silêncio realmente trazia consigo coisas misteriosas. Mas jamais cogitara ser a voz de Deus. E sua razão tampouco o permitiria tal coisa. Aquilo era ridículo! Como poderia existir Deus diante de tão monstruosa tragédia? Como poderia existir um Deus que ficasse de braços cruzados diante do extermínio de bilhões de vidas, apenas para cumprir o seu divino capricho de não interferir no mundo? De fato não havia sentido naquilo.

“Mas Deus tem um plano”, defendeu delicadamente a moça. Aquelas palavras pareceram ecoar no espírito do homem, mas ele se recusou a refletir sobre elas, se recusou a acreditar; perdeu a fé.

Na última cena do filme, contudo, algo surpreendente acontece. Eles estão encurralados numa sala, a beira da morte. Estranhas criaturas os perseguem. São as pessoas infectadas pelo vírus, que sofreram mutações, e agem como animais raivosos à procura de alimento. Eles são o alimento. Sem qualquer resquício de natureza humana, centenas destas criaturas se acumulam atrás da resistente porta de vidro do laboratório, e tentam ferozmente derrubá-la. É o fim da linha. Eles sabem disso. Mas dentro da sala jaz deitada a última das dezenas de cobaias que ele havia utilizado nos seus experimentos em busca da cura. Algo está diferente com ela. Sua aparência está melhor. Então ele a observa mais atentamente e manifesta a sua surpresa: milagrosamente o vírus está regredindo! No sangue daquela ser amarrado sobre a maca está última esperança para humanidade: a cura! Então a sua euforia se mistura com o seu pavor diante das criaturas subumanas que se debatem raivosamente contra a porta de vidro, que não suportará por muito mais tempo. Seria Deus tão irônico a ponto de permitir que ele morresse precisamente na hora em que havia descoberto a cura?

Então o silencio se faz. Em meio ao desespero mortal que envolve a situação o silencio toma conta da sua mente. O mesmo silencio que por tantas vezes escutou nas longas noites que passara sozinho. Ele não ouve mais as criaturas. Tudo está silencioso. Tudo parece estar em câmera lenta. Ele não tem mais medo. Está seguro de si. Começa a enxergar nitidamente todas as coisas, como se tivesse ajustado o foco de uma máquina fotográfica. Percebe o sofrimento das criaturas por detrás do vidro, percebe o medo de sua amiga Ana encolhida no chão junto à parede. Enxerga os detalhes do seu cabelo, enxerga a tatuagem de borboleta que ela possui atrás da orelha. Então ele ouve. Ouve a última frase dita por sua filha minutos antes dela desaparecer em meio às chamas do helicóptero que explodiu em pleno ar. “Olhe a borboleta papai... Olhe para a borboleta”. Ele não tem mais dúvidas: é a voz de Deus. Pela primeira vez na vida ele sabe exatamente o que fazer. Tão próximo da morte ele consegue perceber o capricho das coincidências. Durante anos ele procurou por um sobrevivente sem nunca o encontrar. Quando o encontra, encontra a cura, e morre. Sim, mesmo sem nenhuma palavra, ele podia escutar a voz de Deus tão claramente que jamais poderia negá-la, jamais poderia desprezá-la, jamais poderia duvidá-la. Retira o sangue da cobaia, coloca Ana juntamente com a cura em um alçapão e hesita diante da última pergunta que a moça faz: “O que você está fazendo?”. A sua resposta é vibrante: “Estou escutando...”. Então ele se explode, levando junto todas as criaturas que acabam por invadir anarquicamente o local. Ana e a cura sobrevivem.

O SILÊNCIO DA VOZ DE DEUS - parte 2


Algumas religiões orientais têm um conceito de oração muito diferente. Orar não é ficar falando, falando, sem parar. Orar é fazer silencio absoluto. Pra quê? Para escutar. Escutar a voz de Deus... Certamente a voz de Deus não é uma onda sonora que se propaga pelo ar, chegando ao nosso ouvido em forma de palavras. A voz de Deus não se escuta; se percebe. É uma sincronia, uma ressonância, entre aquilo que ocorre dentro de nós, e que aquilo que ocorre fora de nós. Na tradição cristã a voz de Deus é sugerida pela ação do Espírito, que recebe símbolo do vento. “O cristianismo é a religião do grande vento”, afirmou um teólogo francês fazendo clara alusão ao dia de pentecostes. A própria palavra “Espírito” significa “sopro de Deus”. Mas o vento não se vê, não se aprisiona, não se controla, apenas percebe-se a sua presença. A voz de Deus é como um vento. É como “um fogo que arde sem se ver”, como diria Camões. Numa passagem clássica da Bíblia Judaica o escritor sagrado expressa poeticamente esta sutileza da voz de Deus ao narrar a história do profeta Elias:

“O Senhor disse a Elias: Sai e conserva-te sobre o monte perante a face do Senhor. E eis que nesse momento passou diante do Senhor um grande e forte vento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, veio um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto; depois do terremoto um fogo, porém também o Senhor não estava no fogo. Depois, ouviu-se o murmúrio de uma brisa mansa e delicada”. E diz a Escritura Sagrada que “ouvindo-a Elias cobriu seu rosto com o manto e saiu...” (1 Rs 19: 11-13).

Mais fantástico do que ver um Anjo do céu trazendo uma mensagem verbal direta é perceber a voz de Deus no silêncio da vida quotidiana. É percebê-lo onde ninguém mais percebe. É vê-lo onde ninguém mais vê. O profeta, antes de tudo, é aquele "escuta" a voz de Deus no silencio, nos pequenos detalhes que ninguém dá importancia, nas circunstancia que ninguém percebe sentido algum. Com muita sensibilidade o teólogo católico Jean-Claude Barreau declarou essa verdade:

“Deus não é somente o Deus da tempestade e do excepcional. Ele manifesta-se no coração da vida quotidiana, e necessário saber reconhecê-Lo quando passa como o murmúrio de uma brisa suave”.

O INFERNO EXISTENCIAL



Raríssimos filmes – talvez nenhum – conseguem causar um sentimento tão ambíguo na alma como Réquiem para um Sonho. O telespectador que assistiu o filme desavisado, pensando em entretenimento, em diversão, deve ter saído perturbado, enojado, sem saber se com o filme ou consigo mesmo, travado, como se estivesse a beira de um ataque nervos. Outros devem ter saído totalmente revoltados contra o diretor por haverem sido submetidos a uma brincadeira macabra, uma brincadeira, no mínimo, de muito mau gosto, com coisas que todos consideramos sagradas. A sensação que tiveram, talvez, foi a mesma que eu tive: “não achei graça nenhuma” ou “com essas coisas não se brinca”. O cerne no entanto é exatamente esse: o diretor não estava brincando. Não estava fazendo entretenimento. Ele estava falando sério, e muito. E esse é o golpe preciso que atravessa a medula espinhal do telespectador. Ele sabe que não é ficção; é a realidade. A realidade que está continuamente diante dos olhos de Deus.
A ambigüidade de assistir esse filme se manifesta sobretudo na reação que causa nas pessoas – um filme fantástico, uma obra prima, mas que todos sentem repulsa, que ninguém ousa em assistir uma segunda vez. Réquiem para um sonho é um filme perturbador.

O filme apresenta a dura realidade dos viciados em todos os níveis, mas não só isso. Ele concentra a atenção na fuga. Fuga da realidade. Todos os personagens tinham alguma questão não resolvida. Uma realidade com a qual tinham de conviver. Um passado que os assombrava. Marion, a linda e rica moça que procurava desesperadamente pelo amor que não recebera de seus pais; Tyron, com seu problema de infância, a mãe que ele não esquecia, que via em flashs no espelho, na cama, a quem amava e se encontrava nos sonhos, mas que jamais encontraria na vida real; e Harry e sua mãe que se adaptaram, cada um a sua maneira, a morte do pai/marido; ele refugiando-se nas drogas, e ela na televisão e na comida. Esta era a história dos personagens, e que o diretor muito sutilmente apresenta apenas com recortes, frases isoladas e rápidos flashs. A triste realidade de sofrimento, de inacabamento que todo ser humano enfrenta podia ser sentido naquelas quatro pessoas. Realidade que poderia leva-los por dois caminhos antagônicos: o enfrentamento ou a fuga. O destino deles foi a fuga. O diretor, porém, não demonstra ter a mínima misericórdia do telespectador – pelo contrário, parece querer mesmo jogar na cara dele – quando apresenta estes viciados como pessoas, como gente de carne osso, como qualquer um de nós, com sonhos, aspirações, desejos, com fome de viver, mas que gradativamente mergulham num profundo abismo, no inexorável, num inferno existencial cujos demônios não são seres incorpóreos, mas os próprios semelhantes, os próprios seres humanos que nos rodeiam todos os dias.

Mas o diretor também é implacável na sua leitura do ser humano. O ser humano não é apenas um ser frágil, que é facilmente atingido pela tragédia e pela dor, que o faz fugir para um lugar de alívio, ainda que ilusório. O ser humano é também o aproveitador, aquele que explora esta condição lamentável de miséria que o outro pode chegar. Os médicos (ou por extensão toda a indústria da medicina) completamente insensíveis, pedrados, que atendiam a velha Sara sem sequer olharem em sua face, que garantiam seus lucros às custas da desgraça existencial da pobre viúva; o apresentador de TV (e por extensão os programas televisivos), que se alimentava das ilusões das pessoas usando técnicas de manipulação psicológica, patrocinando e incentivando a fuga da realidade. E, por fim, os traficantes, os devoradores de alma, os comerciantes do sexo, os depravados, que exploravam a triste situação de desespero dos jovens viciados para terminarem por arrancar a última gota de dignidade que ainda lhes restava na alma, em troca de uma noite de diversão.

Sem dúvida há pessoas que vivem da desgraça, da ruína, da destruição dos sonhos alheios. Sem dúvida existe um inferno para estes demônios, para estes que patrocinaram o inferno na vida de muitos outros aqui na terra.

Enfim, Réquiem para um Sonho expõem com toda crueza possível aquilo que não é incomum, mas que é camuflado, que é dissimulado, é escondido, para que a humanidade se convença que funcionou. Para que a humanidade se convença que “deu certo”, que está indo bem. Réquiem expõe a humanidade despida, sem maquiagem, mostrando toda a sua podridão e seu desespero interno, e mostrando que se engana quem acha que tudo vai bem. Engana-se quem acha que a humanidade não precisa de Redenção.

BIG FISH - O contador de histórias

OS MITOS E A BÍBLIA SAGRADA

Quem é capaz de contar uma história exatamente como ela aconteceu? Sem nenhum vestígio de pessoalidade ou subjetividade?

No filme Big Fish o protagonista era conhecido por suas histórias fantásticas, exageradas, aumentadas, e supostamente inventadas. O senso comum das pessoas entende as histórias fantásticas assim: elas não são verdadeiras. Servem apenas para entreter. E no filme não era diferente: o próprio filho do protagonista pensava dessa forma. Desde criança ele havia bebido avidamente das histórias de seu pai, jamais questionando a veracidade daquelas informações. Ao atingir certa idade, contudo, percebeu que aquelas histórias fantásticas não poderiam ser verdadeiras. O castelo de areia desmoronou. De herói seu pai se transformou num mentiroso. Na melhor das hipóteses, num contador de histórias... Porém, no fim do filme, diante de uma enfermidade mortal que acometeu seu pai, o rapaz fez uma importante descoberta. Ele descobriu que uma das histórias do velho era verdadeira, embora os detalhes fossem exagerados. Então subitamente ele foi tomado por um esclarecimento que o levou a pensar: “Será que todas as histórias do meu pai realmente aconteceram?”. E de fato ele acabou por descobrir que sim, todas aquelas histórias realmente haviam acontecido, embora tivessem recebido uma roupagem de detalhes fantásticos característicos de seu pai. Pego de assalto, o rapaz passou a refletir sobre o seu modo de pensar: “será que meu pai estava errado na maneira de contar suas histórias ou eu é que estava errado na maneira de entendê-las? Será que alguém está errado em revestir de fantástico uma história que para ele, no contexto em que ela aconteceu, realmente fora inesquecível?”. E assim, o rapaz acabou, ele mesmo, se tornando um contador de histórias.

O que nos chama a atenção num filme como este é que ele vai na base da construção do nosso modo de pensar. Raciocinamos segundo o padrão da historiografia moderna. É preciso ser impessoal, imparcial, objetivo e preciso nos detalhes. Mas, em primeiro lugar eu pergunto: existe tal coisa? Será que existe tal objetividade? Existe alguém que consegue enxergar os fatos fora da moldura psicológica que lhe dá forma: a sua cultura, sua educação, sua criação, o seu tempo, a sua própria vida? Existe alguém neste planeta capaz de ser absolutamente imparcial, impessoal, objetivo, sem qualquer vestígio de subjetividade? Se existe devemos ser chamados a adorá-lo. Mas a questão mais importante é a seguinte: vale a pena o preço pago por esta pretensa objetividade?

Lembremos das histórias do passado que hoje são taxadas de fantasiosas. Arquimedes estava tomando banho em sua banheira quando descobriu um dos princípios da hidrostática; então pulou da banheira e saiu pelas ruas da Grécia nu, gritando: "Eureka, Eureka! Consegui, Consegui!". Isaac Newton estava sentado embaixo de uma macieira apreciando o céu quando subitamente foi atingido na cabeça por uma abençoada maçã, que o fez criar a brilhante da Teoria da Gravitação Universal. Que importa que os detalhes dessas histórias não são exatos? Que importa que não existiam macieiras na cidade natal de Isaac Newton? Isso é realmente relevante, a não ser para aqueles que querem levantar a história da maçã na Inglaterra? O que percebo como mais importante é que são justamente estes detalhes fantasiosos que imortalizam um fato indiscutivelmente verdadeiro e de suma importância na mente dos ouvintes. O que percebo como mais importante é que estas histórias ficaram por séculos gravadas na mente daqueles que as escutaram, enquanto que os registros impessoais da historiografia moderna desapareceram como uma neblina da memória das pessoas. Este é o preço pago pela pretensa objetividade: o esquecimento.

Acontecimentos fantásticos merecem historias fantásticas. Porque o simples relato dos fatos não pode conter toda magnitude destes acontecimentos. É assim que criaram-se os mitos do passado, que hoje são considerados fantasiosos e sem valor. Hoje, o que geralmente acontece, por incrível que pareça, não é alguém exagerar enquanto conta uma história; é o contrário: alguém depreciar um fato de suma importância, reduzindo-o ao nível de um relato frio e impessoal. O que eu gosto na Bíblia Sagrada é que não existe esta preocupação helênica dos seus autores em serem objetivos e impessoais. A História, na Escritura Sagrada, é contada de modo diferente. Os escritos milenares contradisseram frontalmente os critérios da historiografia moderna, mas para garantir que sua poderosa mensagem ficasse gravada para sempre no espírito daqueles que a leram.

O AMOR x PODER


Este filme conta história de Jean-Baptist, uma criança que nasceu com um dom sem igual: um olfato capaz de distinguir todos os cheiros do mundo. Este seu grande dom fez com que ele ingressasse na intrigante e pouco conhecida arte da perfumaria. Ele passou a estudar os mais diferentes aromas, os cheiros, as essências, os componentes, suas origens, os métodos de extração, e por fim se tornou o maior perfumista que o mundo já conheceu. Mas a ambição de Jean-Baptist era grande: ele queria produzir uma lendária essência egípcia cujo poder do aroma faria as pessoas sentirem-se como se estivessem no Paraíso. Assim, durante anos o jovem perfumista perseguiu este objetivo, até o dia em que o conseguiu. A Fórmula estava pronta. Então, depois de tão grande expectativa, ele a usou pela primeira vez, e percebeu que aquela porção tinha o incrível poder de fazer as pessoas se amarem. Todos que eram submetidos à indescritível fragrância criada por Jean-Baptist eram tomados por um sentimento de amor incontrolável pela pessoa que a exalava. E assim o jovem rapaz sentiu a inenarrável satisfação de ser – pela primeira vez na vida – amado. A satisfação, porém, durou pouco. Logo Jean-Baptist percebeu que um amor que não brota verdadeiramente do coração daquele que ama é um amor vazio, que não tem sentido. Um amor que provem do feitiço de um perfume é um amor que não tem valor. Não existe glória num amor que vem pela força. O amor precisa ser conquistado.

Esse filme me fez lembrar do dilema do Deus dos cristãos. Deus é Onipotente. Ele pode tudo. Porém uma única coisa Ele não pode: forçar os homens a amá-lo. Por maior que seja o poder reivindicado pelo Ser Supremo Ele não tem o poder de causar o amor. Não existe glória num amor que vem pela força. Por definição o amor é voluntário. No entanto uma brecha foi aberta na divindade. Na odisséia cristã o inimaginável acontece. O Todo-Poderoso abdica do seu poder, da sua glória, da sua magestade, para se fazer fraco e pequeno (se fazer homem!), para vir ao mundo conquistar o amor dos homens... A única maneira de realmente ser Onipotente é não sendo. É aceitando a possibilidade da rejeição de alguns, para conquistar o amor de muitos. Foi na im-potencia que Jesus provou sua oni-potencia. Ele demonstrou consciencia deste fato ao declarar: "Quando eu morrer todos atrairei para mim".