
Algumas religiões orientais têm um conceito de oração muito diferente. Orar não é ficar falando, falando, sem parar. Orar é fazer silencio absoluto. Pra quê? Para escutar. Escutar a voz de Deus... Certamente a voz de Deus não é uma onda sonora que se propaga pelo ar, chegando ao nosso ouvido em forma de palavras. A voz de Deus não se escuta; se percebe. É uma sincronia, uma ressonância, entre aquilo que ocorre dentro de nós, e que aquilo que ocorre fora de nós. Na tradição cristã a voz de Deus é sugerida pela ação do Espírito, que recebe símbolo do vento. “O cristianismo é a religião do grande vento”, afirmou um teólogo francês fazendo clara alusão ao dia de pentecostes. A própria palavra “Espírito” significa “sopro de Deus”. Mas o vento não se vê, não se aprisiona, não se controla, apenas percebe-se a sua presença. A voz de Deus é como um vento. É como “um fogo que arde sem se ver”, como diria Camões. Numa passagem clássica da Bíblia Judaica o escritor sagrado expressa poeticamente esta sutileza da voz de Deus ao narrar a história do profeta Elias:
“O Senhor disse a Elias: Sai e conserva-te sobre o monte perante a face do Senhor. E eis que nesse momento passou diante do Senhor um grande e forte vento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, veio um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto; depois do terremoto um fogo, porém também o Senhor não estava no fogo. Depois, ouviu-se o murmúrio de uma brisa mansa e delicada”. E diz a Escritura Sagrada que “ouvindo-a Elias cobriu seu rosto com o manto e saiu...” (1 Rs 19: 11-13).
Mais fantástico do que ver um Anjo do céu trazendo uma mensagem verbal direta é perceber a voz de Deus no silêncio da vida quotidiana. É percebê-lo onde ninguém mais percebe. É vê-lo onde ninguém mais vê. O profeta, antes de tudo, é aquele "escuta" a voz de Deus no silencio, nos pequenos detalhes que ninguém dá importancia, nas circunstancia que ninguém percebe sentido algum. Com muita sensibilidade o teólogo católico Jean-Claude Barreau declarou essa verdade:
“Deus não é somente o Deus da tempestade e do excepcional. Ele manifesta-se no coração da vida quotidiana, e necessário saber reconhecê-Lo quando passa como o murmúrio de uma brisa suave”.
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